Meio: O Globo Online
Data: 19
/02/2007

Originalidade encontra o luxo no desfile da Viradouro

Giovani Lettiere

RIO - Em sua estréia como carnavalesco da Viradouro, Paulo Barros conseguiu o que pretendia: aliar o luxo proporcionado por uma escola rica a originalidade e criatividade, sua marca nos três carnavais assinados na Unidos da Tijuca.
Ainda na concentração, um nervoso Paulo não quis falar em vitória:

- Vitória? Que vitória? Isso só na Quarta-Feira de Cinzas - minimizou ele para O GLOBO ONLINE, de olho nos últimos retoques.

Mas o que viria a seguir da conta que a (boa) sorte está mesmo lançada. Já na comissão de frente, a originalidade deu o tom, com um jogo da memória. No primeiro carro, destaque para as alegorias humanas perfeitamente coreografadas, outra marca de Paulo. Coringas se equilibravam em dados giratórios, com direito a pirotecnia, também presente no casal de mestre-sala e porta-bandeira, cuja roupa cuspia fogos na saia que representava uma roleta. As alegorias humanas não causam tanto frisson mais, já que deixaram de ser novidade e são copiadas a exaustão pelas concorrentes, mas que o resultado é bonito de se ver, ah, isso é!

 As alas coreografadas vieram a seguir, e mesmo com todo o hermetismo na descontração que elas possam parecer para quem assiste ao espetáculo pela TV, acontece exatamente o contrário ao vivo. Todos se divertem a valer, felizes da vida. De dar gosto mesmo.

Com mais grana para gastar, percebe-se um requinte na confecção das fantasias e dos carros alegóricos. Tudo é perfeito, como os carnavais de Rosa Magalhães na Imperatriz Leopoldinense, só que sem a frieza da escola de Ramos. As alegorias são grandiosas e, sempre, criativas. As roupas das alas são uma obra-prima.

Mas a grande novidade mesmo do desfile foi o destaque dado à bateria. E que destaque. Pela primeira vez os ritmistas ganharam um carro alegórico para chamar de seu. E para os que temiam que algo pudesse dar errado (já que a subida deles no tempo certo era crucial para o andamento do desfile), a redenção: o resultado foi além do esperado.

 Os foliões nas arquibancadas da Marquês de Sapucaí foram ao delírio quando os 300 ritmistas subiram na alegoria. Mestre Ciça ficou no topo, regendo a "orquestra" no tabuleiro de xadrez. A rainha, Juliana Paes, veio logo abaixo, na frente do carro. Logo depois, uma ala com 300 ritmistas de "mentirinha", fingindo tocar instrumentos cenográficos. Eles tomaram o lugar dos "de verdade" quando eles foram para o segundo recuo da bateria.

Mas nem toda inovação de Paulo Barros deu certo. O carro que mostrou um castelo todo feito com cartas de baralho de cabeça para baixo não funcionou bem cenicamente e não surtiu efeito algum no público. Ou melhor, causou estranhamento. Não havia ninguém! Manequim representava um destaque. A alegoria teve problemas na concentração, mas que foi rapidamente solucionado. Poderia ficar por lá mesmo.

Outros carros fizeram mais sucesso, como o carro "Onde está Wally?", com dezenas de pessoas se revezando entre portas giratórias numa alegoria de três andares. A brincadeira funcionou e todos queriam achar o personagem criado pelo inglês Martin Handford. Outro momento de genialidade de Paulo Barros ficou evidenciado na ala do jogo de futebol, com grama viva que virava torcedor quando um gol era marcado. Gol de placa.

Na dispersão, o nervosismo inicial de Paulo deu lugar à euforia. Ele cumprimentou longamente um emocionado Marco Lira, presidente da Viradouro.

- Valeu. Agora é esperar o Ás - vibrou o carnavalesco, mostrando a carta que levou no bolso como amuleto de sorte.

O talismã dele é um olho turvo, pendurado em seu pescoço.

E você acha que a bateria-destaque pode colaborar, e muito, na vitória da escola de Niterói?

- Eu apostei que o público ia gostar, e parece que sim. A mídia também adorou. O resultado agora é conseqüência - disse ele, que acaba de renovar seu contrato com a Viradouro para mais um carnaval pela escola.
- Estou feliz com a renovação antecipada. Viemos este ano com força total. Agora já vou começar a tocar o carnaval do ano que vem - comemorou ele.

Bateria da Viradouro foi o grande destaque da escola - Foto: Fernando Maia / O Globo

E a festa pode começar mesmo na Quarta-feira de Cinzas, quando sai o resultado da grande vencedora do carnaval carioca. Com o enredo "Viradouro vira o jogo", a vermelho-e-branco de Niterói tem grandes chances de ser campeã no grande jogo para ver quem leva a melhor na Marquês de Sapucaí. A sorte está lançada...


Desfile das escolas de samba do grupo especial: Viradouro - Gabriel de Paiva/O Globo                                                 Desfile da comissão de frente da Viradouro - Fernando Maia/O Globo