Meio:
O Fluminense
Data: 04 /02/2007
O Ás na manga da Viradouro
Danielie Moitas
Um carnavalesco com muitas idéias na cabeça e sem papas na língua. Assim é o grande nome do Carnaval desde 2004, Paulo Barros, que esse ano mostra toda a sua criatividade e vontade de acabar com o tradicionalismo dos desfiles à frente da Unidos do Viradouro. O enredo não podia estar mais de acordo com as pretensões do homem que desperta os mais diferentes sentimentos nos concorrentes, jurados e público. "A Viradouro vira o jogo" é a oposta do gênio das alegorias para conseguir, finalmente, sair da Marquês de Sapucaí aclamado como campeão, não apenas pelos espectadores, mas também pelos julgadores.O Brasil descobriu a genialidade de Paulo Barros em 2004, quando à frente da Unidos da Tijuca, ele surpreendeu e sacudiu a Marquês de Sapucaí com um enredo sobre ciência e um carro alegórico
que era considerado um monstro na concentração, porque de alegórico não tinha nada. Barros se tornou o que é hoje graças a uma estrutura metálica que com mais de cem bailarinos sentados se transformava no famoso carro do DNA. Mas ele garante que apesar do que se pode pensar, ele não veio de outro planeta. "Em 2004 eu apareci, não só pelas minhas inovações, mas também porque o grupo especial é a grande vitrine do Carnaval.
Mas eu não cai de pára-quedas, não vim do planeta Marte.
Trabalho profissionalmente como carnavalesco desde 94 “- esclarece.
Mas não há como negar que, no mundo do Carnaval, Paulo Barros realmente parece um E.T. No ano seguinte, mais novidades. Um rabo de pavão humano, um carro com vinte chassis de fusca... Parece que a missão do criador é tentar mudar todas as criaturas do mundo do Carnaval.
"Eu prefiro correr o risco a partir para a receita do bolo, põe três xícaras de farinha, três ovos. Não. Eu quero pôr cinco ovos. É perigoso? É. Um carro composto por vinte chassis de fusca é perigoso? É muito perigoso. Mas eu prefiro fazer, arrojar e tentar a usar essa fórmula que a maioria das pessoas está usando", explica Barros, engrossando a opinião do público que diz que o Carnaval está padronizado:
"Se você diminuir o volume da televisão, se na avenida tapar os ouvidos, não vai saber quem está passando. Eu faço uma aposta: se a gente pegar um carro alegórico de uma escola, colocar num barracão, embalar ele todinho, depois voltar com ele na avenida no ano seguinte, ele vai passar e as pessoas não vão perceber, vai ser mais um".
É por essas e muitas outras declarações que muita gente torce o nariz quando escuta o nome de Paulo Barros. Sua fama de mal-humorado é conhecida e propagada no meio carnavalesco. Mas bastam apenas alguns minutos de conversa para descobrir que a fama não procede. O carnavalesco é apenas um homem que defende suas idéias com garra e paixão. E não quer se render às fórmulas já conhecidas.
"Eu sou espectador de Carnaval desde criança e me incomoda essa questão de sempre ver a mesma coisa. Eu quero ver algo que me cause tesão, emoção. Eu quero provocar isso nas pessoas", explica.
Criação.
Mas como será que Paulo Barros consegue com tanta facilidade provocar algo que todos os outros se esforçam para conseguir? Segundo ele, tudo começa com um bom tema.
"Eu tenho várias possibilidades de enredo. Esse leque vai aumentando até eu escolher aquele que vai me dar o melhor retorno plástico e emocionar as pessoas. Acho que é preciso ter cuidado na hora da escolha. Essa é a receita do sucesso", ensina.
Dentro do seu leque de possibilidades, o carnavalesco procura trabalhar com temas que nunca foram explorados antes. Segundo ele, seus enredos preferidos são os que falam de história, mas sempre explorando um lado mais moderno e arrojado da época.
"Eu gosto de formas e coisas que nunca foram faladas antes. Tanto que em 2004, quando eu vim com um enredo sobre ciência, todo mundo disse que não era carnavalesco. E foi provado que era tão carnavalesco que fiquei em segundo lugar", defende Barros, que ressalta que não existe um segredo para desenvolver bem uma idéia.
"Quando eu escolho o tema, reúno imagens para saber o que vai me dar o melhor retorno visual. Depois que recolho essas imagens monto o desenvolvimento do enredo, começo, meio e fim".
Ajuda
Mas Barros não trabalha completamente sozinho em seus momentos de criação. O carnavalesco afirma que gosta de dividir suas idéias com outras pessoas. Este ano, na Viradouro, seu fiel escudeiro, Júnior, pensa com ele as soluções para cada um dos carros e fantasias.
"As minhas loucuras eu trabalho na minha cabeça, só que gosto de dividir minhas coisas. Este ano estou dividindo com o Júnior. A gente debate as soluções. Duas cabeças pensam melhor que uma", defende.
Para Júnior, é um privilégio trabalhar ao lado do grande nome do Carnaval.
"Na verdade, é o Paulo que me deixa sonhar com ele".
Bateria nota 10.
Mas não é só da genialidade de Paulo Barros que vive a Viradouro. Uma das marcas registradas da escola do Barreto na avenida é a sua bateria. E ela, há nove anos, tem um comandante exigente e com muita personalidade: Mestre Ciça. É dele a assinatura das ousadias que vemos a cada ano, como por exemplo, ritimistas que reverenciam sua rainha – Juliana Paes – e que sobem e descem de um carro alegórico pela primeira vez na história do desfile."Quando entrei na Viradouro já existia a batida funk. Eu cheguei mais da minha maneira, gosto de coreografia. A cada ano eu tenho o desafio de fazer algo diferente. A comunidade cobra. Mas eu gosto de desafios", garante Ciça, que reza pela mesma cartilha de Barros. "O papapá, pupupú, todo mundo sabe fazer. Mas o diferencial...”.
E qual é a receita do Mestre Ciça? Segundo ele, se alguém fechar os olhos e ouvir a bateria da Viradouro vai encontrar uma característica muito marcante.
"É uma bateria de caixa de guerra. É uma coisa minha, eu trouxe para a Viradouro. Quando eu vim pra cá era um outro estilo. Essa é a minha levada e é uma levada difícil, mas que eu gosto muito", conta ele, que explica que essa característica foi desenvolvida nos tempos em que era mestre de bateria na Estácio de Sá.
Segredo
Segundo Mestre Ciça, para conseguir as tão sonhadas notas 10, é preciso muita disciplina e pulso firme de quem está à frente dos ritimistas.
"Sentir que você tem a bateria na mão é o segredo do sucesso. E isso eu tenho. Se tiver que dar cambalhota, vamos dar cambalhota. Se tiver que plantar bananeira, vamos plantar bananeira. Sempre pelo bem da bateria. Além disso, temos que ensaiar muito e ter disciplina", orienta.
Mas nem tudo são flores na vida de Ciça. Ele explica que conseguir lidar com 300 ritimistas é um desafio. Para ele, é preciso muitas vezes encarnar o papel de psicólogo e até mesmo de pai.
"Na bateria você lida com pessoas muito diferentes, de vivências e origens diferentes. Fazer essas pessoas se entenderem, tocar no mesmo ritmo, querer a mesma coisa, é muito difícil. Tem que ter muita psicologia, criar uma relação de confiança, de amizade", explica.
Atravessar
Essa é, de acordo com Ciça, a única coisa que uma bateria não pode fazer.
"Não pode perder a concentração no que está fazendo. Por exemplo, eu saio com doze marcadores de primeira. Se um deles errar, acaba com o trabalho de um ano inteiro. São eles que dão sustentação a bateria", conta.
Todos querem ser Paulo Barros
Parece que as idéias pioneiras já estão fazendo escola. Pelo menos é o que garante Barros e o presidente da Viradouro, Marco Lira. O carnavalesco afirma que o público verá muitas idéias bastante familiares em outras escolas na avenida este ano.
"Eu já estou sendo copiado. Esse ano, quase todas as escolas estão fazendo a mesma coisa. Eu tenho réplicas de carros meus de três anos que vão estar na avenida. É só pesquisar que vão descobrir quais são", desafia.
E com a certeza de que as cópias estarão a solta na Sapucaí, Barros pretende mudar sua fórmula não mais tão secreta, certo? Errado. Segundo ele, ainda não é hora.
"Talvez eu surpreenda com algumas coisas, mas a fórmula não foi modificada. Tenho que comer desse filezinho ainda mais alguns anos. Até porque leva tempo para que haja uma modificação. Agora, que vai ter cópia, vai. Mas não me importo. Falem mal, mas falem de mim", brinca.
Para Marco Lira, explicar o por quê escolheu Paulo Barros para liderar a Viradouro na avenida é fácil. O carnavalesco é, em sua opinião, a renovação, o futuro do espetáculo.
"O Carnaval precisa quebrar com o tradicionalismo e o Paulo é uma das mais importantes mudanças. Ele fez escola. Não há como fugir: muitas escolas vão vir com um carnaval parecido com o dele. Mas todo mundo vai ver o original: aqui na Viradouro", destaca.
Enredo
Esse ano, a Viradouro quer virar o jogo. E Paulo Barros também. Depois de sair da avenida três anos consecutivos aclamado como campeão e não conseguir o reconhecimento dos jurados, a aposta é que em 2007, tudo vai mudar. Apesar de não ter sido proposital, já que a sugestão veio de um amigo, o tema cai como uma luva nas pretensões do carnavalesco e da escola.
"O Paulo ainda não ganhou um Carnaval, mas é considerado genial. Então, por que essa não é a hora dele? Assim como é a hora da Viradouro, dez anos depois de ganhar o campeonato. É o casamento perfeito", defende Marco Lira.
E um casamento que foi discutido desde o início da relação. Antes de começar a desenvolver o enredo, Barros teve o cuidado de procurar saber até que ponto teria liberdade para imprimir sua marca na nova escola. A resposta foi uma carta branca.
"A Viradouro tem uma característica de luxo e a minha vinda foi questionada. Então, eu procurei o Marco Lira para saber qual direcionamento eu teria que dar para o meu carnaval. E ele me disse para ser eu mesmo. Fazer um carnaval do jeito que eu gosto e se pudesse, unir ao luxo que a escola gosta. E é o que estou fazendo", esclarece.
Para desenvolver o enredo, o carnavalesco pensou que a tarefa fosse ser mais fácil. Depois que o tema foi definido e Paulo começou a fazer sua pesquisa, se deparou com um número muito grande de jogos.
"Eu tive que filtrar com muito cuidado os jogos que iria abordar, já que não teria espaço para falar de todos eles. Daí surgiu a idéia de transformar a avenida em um tabuleiro de percurso. A cada casa que a gente vai andando é um jogo a ser mostrado", explica Barros.
E durante esse percurso, o carnavalesco encontrou algumas pedras. Uma delas foi um carro que não estará na avenida.
"Eu tinha um carro, dos Búzios, que o papel foi pra parede e ficou lá, em branco. Eu ia pra mesa, pensava, pensava e não resolvia. Até que teve um dia que eu resolvi que não queria mais búzios nenhum. Peguei outro jogo e coloquei. Ele seria um carro trivial. Mais um na avenida", relembra.
Apesar de gostar de manter suas criações em segredo para surpreender o público na hora do espetáculo, Barros dá algumas pistas sobre o que vamos ver esse ano na Marquês de Sapucaí. Sobre o aguardado abre-alas, o carnavalesco garante que será um carro fora dos padrões do Carnaval.
"A alegoria será baseada em uma estrutura metálica. A presença humana será indispensável para fazer a engrenagem do carro funcionar. O carro terá muito movimento e irá se modificar ao longo do desfile. Vamos usar muitos efeitos especiais", adianta o carnavalesco.
Como toda boa escola de samba, a Viradouro também irá apostar em suas cores, o vermelho e o branco para basear seu desfile. Mas outras tonalidade também terão vez, como por exemplo, o rosa.
História de um desfile
Segredos guardados a sete chaves. Carros em posições nada convencionais, cartas de baralho. Todos querem saber o que Paulo Barros guarda para o desfile desse ano. Ele não revela nada, nem sob tortura. Quer dizer, quase nada. A idéia mais ousada da história do Carnaval já está explicada. O tabuleiro de xadrez da Viradouro já tem as suas peças.
Quem não torceu o nariz quando ouviu pela primeira vez que a bateria da escola desfilaria em um carro alegórico? Idéia de Mestre Ciça, que depois de anos tentando encontrou o apoio de Paulo Barros.
"Eu já queria fazer isso há muito tempo, mas foi o Paulo que me apoiou. Também contamos com o Marco Lira, que comprou nossa idéia e assumiu os riscos", garante Ciça.
Para conseguir transformar o sonho em realidade foi preciso muito trabalho. O carnavalesco lembra que foram dias de cálculos para fazer com que o carro desse certo.
"Comecei a ver possibilidades. Tivemos que calcular a estrutura do carro, qual seria o tamanho necessário para acomodar 300 ritimistas, o que seria necessário para sustentar todo o peso. E está aí".
O tabuleiro da Viradouro será formado por três carros que serão acoplados na avenida. Na parte mais alta desfila Mestre Ciça comandando a bateria. Na parte da frente do carro, a rainha Juliana Paes.
A bateria começa o desfile no primeiro recuo. O carro entra na avenida vazio, a bateria sobe e segue no carro até o segundo recuo, quando desce e dá lugar a ala "Xadrez".
"Estamos cronometrando o tempo que a bateria e a ala levam para subir e descer do carro. Não podemos arriscar perder pontos em conjunto", esclarece Lira.
Já a preocupação de Mestre Ciça é não ter problemas com o som.
"Temos o problema da sonorização. Se 150 ritimistas estiverem em cima, ainda vão ter mais 150 em baixo. Pode haver uma distância de som, um ritmista tocar aqui e outro lá. É por isso que estamos ensaiando", garante Ciça.
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