Meio: Site Tudo de Samba
Data: 06
/02/2007

Paulo Menezes na Viradouro e Paulo Barros na Estácio

O que até bem pouco tempo seria inimaginável, aconteceu. Nunca se ouviu falar de carnavalesco do Grupo Especial visitando, a poucos dias do desfile, o barracão de um concorrente. Paulo Barros e Paulo Menezes quebraram este tabu. A idéia da troca de visitas aconteceu num bate-papo, há duas semanas, quando um começou a descrever para o outro alguns detalhes do que estão preparando para o espetáculo de Domingo de Carnaval, quando a Estácio, de Paulo Menezes, abre o desfile, e a Viradouro, de Paulo Barros, será a quarta a entrar na Avenida. "E por que não nos visitarmos?" – indagaram, na ocasião.

O encontro foi marcado para a última quinta-feira. Ficou combinado que Barros, que assinou o desfile campeão da Estácio no Acesso em 2006, iria primeiro ao barracão de Menezes. Logo na entrada, o carnavalesco da Viradouro observou um minucioso trabalho de pintura que um profissional fazia na parte traseira de uma alegoria.

- Nossa! Isso é a cara do Menezes (risos). Coitado de quem tem que fazer isso. Deve ser castigo (mais risos) – brincou Barros, numa referência ao estilo rebuscado das criações de Menezes.

Em poucos minutos, Paulo Menezes chega para receber o amigo.

- E aí, tudo bem? Vamos dar uma andada? A Célia (Célia Costa, repórter do jornal O Globo convidada, junto com o TUDO DE SAMBA, a registrar a inédita visita) já chegou.

Sentados num dos tripés que a Estácio vai levar para o desfile, os dois artistas começaram a falar. Disseram que acham importante a postura que alguns colegas da nova geração estão adotando, e que o encontro daquela tarde representava justamente isso.

- Felizmente, as coisas estão mudando. Somos concorrentes, mas não somos inimigos. Tanto que estamos nos visitando. Todos têm seu espaço, mas, infelizmente alguns, mais antigos, não têm esse comportamento e nem essa mentalidade – comentou Paulo Menezes.

- Ah, não têm mesmo! A mentalidade e o comportamento de alguns, aliás, têm cheiro de naftalina. Na minha relação de amizade com o Paulo (Menezes) tem confiança, tem afinidade. A gente se respeita. Aqui cada um confia no próprio trabalho e deseja que o outro também se dê muito bem – disse Paulo Barros.

- Nós conversamos muito. Trocamos idéias, temos até uma espécie de lista negra. Quando um quer contratar um profissional que já trabalhou com o outro, a gente se telefona e pega informações. A pessoa que vacilou com um, não precisa nem perder tempo tentando trabalhar com o outro – confessou Menezes.

O carnavalesco da vermelho-e-branco de Niterói voltou a falar da classe de artistas do Carnaval.

- Há alguns anos, tentaram fazer uma Associação de Carnavalescos, mas a idéia acabou não vingando. Não vingou por causa da vaidade. A nossa classe não é unida mesmo. Tem carnavalesco que não perde a oportunidade de criticar o trabalho dos outros. O Max (Lopes, da Mangueira), por exemplo, é um. Eu nunca vim a público pra criticar o trabalho dele e nem de ninguém, mas acho que ele está muito incomodado com o meu sucesso. Outro dia, ele foi receber uma homenagem (Max Lopes recebeu o título de imortal da Academia Brasileira de Belas Artes) e, quando foi entrevistado por um repórter, em vez de falar da carreira dele, passou a falar de mim, sem mais nem menos. Disse que o que eu faço não é Carnaval, que eu penso que Carnaval é espetáculo da Broadway e criticou o excesso de coreografias nos meus desfiles. Ainda falou que eu vou morrer sem receber uma homenagem igual a que ele estava recebendo naquele dia. Mas ele está enganado. É Carnaval, sim, e o povo gosta. Mas eu tenho que reconhecer que ele consegue muitas façanhas, uma delas é que ele pensa que ainda está vivo. Vi os ensaios técnicos da Mangueira e o que não falta na escola é ala coreografada. Então, ele devia, em vez de se preocupar comigo, olhar para a escola dele e me deixar em paz. É incrível que ele não me esquece. Quando ele me atacou a primeira vez, eu preferi ficar calado, mas como ele continuou, eu não vou deixar ele falando sozinho, coitado – ironizou.

Paulo Menezes acha que a valorização da nova safra de artistas incomoda.

- As pessoas criticam mesmo. Vivem dizendo por aí que eu sou uma pessoa difícil. Vivem apontando defeitos em mim e no Paulo (Barros). Se ser difícil é lutar para ser respeitado e trabalhar com seriedade, eu sou difícil mesmo. Mas eu prefiro ignorar. Mesmo com tanta gente tentando jogar contra, eu pude me dar ao luxo de dizer que não queria fazer um enredo que achei ruim, fui demitido do Império Serrano no meio do ano, e, dois dias depois, já tinha recebido duas propostas de grandes escolas do Especial. Muita gente, naquela época, disse: 'Agora é que eu quero ver que escola vai querer este cara. Vai ficar desempregado e fora do Carnaval'. A minha contratação imediata pela Estácio calou a boca de muita gente. Isso incomoda. Nós dois somos profissionais que sabemos o que queremos. Depois de tantos anos ralando nos Grupos de Acesso, ganhamos experiência e chegamos ao Especial com personalidade.

- O Menezes fala, mas ainda não sofreu nem metade do que eu passo. Deixa ele ser campeão, pra ele ver como ele vai sofrer. Eu ainda não fui e já vivo apanhando (gargalhadas). Eu tenho que matar um leão por ano. Ih! (cara de espanto) Acabo de me tocar que este ano vou ter que matar dois! (mais gargalhadas) – brincou Paulo Barros, lembrando que o leão é o símbolo da Estácio.

Os dois carnavalescos destacaram Alex de Souza, atualmente na Mocidade Independente de Padre Miguel, como um artista da nova safra que tem perfil semelhante ao deles e preparado para se firmar no grupo de elite do Carnaval carioca. Os nomes de Jack Vasconcelos, carnavalesco do Império Serrano e amigo de Paulo Menezes, e de Luiz Carlos Bruno, da Unidos da Tijuca, que é amigo dos dois, também foram lembrados na conversa.

- Só vamos ter oportunidade de avaliar o trabalho deles depois dos desfiles do Império e da Tijuca. Mas claro que a gente torce para que eles tenham uma estréia de sucesso – declarou Paulo Barros.

Depois de posarem para as fotos, Menezes passou a mostrar o barracão para o amigo.

- Que peça maravilhosa! – exclamou o Paulo da escola de Niterói, ao avistar esculturas ainda em fase de acabamento. Em seguida, ao deparar com a alegoria, que no enredo "O tititi do sapoti" vai representar a popularização do chiclete nos Estados Unidos, comentou:

- Perfeita essa Estátua da Liberdade! Show!

- É, depois do desfile, vou doar para aquele shopping lá da Barra da Tijuca. A que tem lá é horrível! – brincou Menezes, em meio às gargalhadas de ambos.

Depois de uma hora, visita encerrada na Estácio. Sob olhares atentos de alguns dirigentes de escolas e de funcionários da Cidade do Samba, os dois atravessaram junta a Praça de Alimentação, rumo ao barracão da Viradouro. Vendo o abre-alas de Paulo Barros, que estava do lado de fora, Menezes disparou:

- Não acredito que você me chamou aqui pra ver ferro! (risos)

- Ué, mas você esperava o quê? Você não deixa sobrar brilho pra mais ninguém! (mais risos ainda).

Entre uma piada e outra, Barros leva Menezes para dentro de seu barracão.

- Gostei desse 'Pinball', adorei os detalhes – comentou o carnavalesco da Estácio, sobre um dos carros criados pelo amigo para contar o enredo "A Viradouro vira o jogo".

E o anfitrião foi levando o visitante para ver de perto outras de suas invenções.

- Legal esse carro do 'Onde está Wally', mas se fosse meu, botava paetês pra enfeitar todas as portas – disse Menezes, que conheceu, também, o castelo de cartas, o carro do cassino, o carro do xadrez, que vai levar a bateria no desfile, além dos efeitos especiais e das outras surpresas que o amigo está preparando.

Depois de percorrerem o primeiro andar do barracão, Barros convidou Menezes a subir ao terceiro andar e saborear o lanche que havia preparado.

Na despedida, o Paulo da Viradouro leva o Paulo da Estácio até a escada.

- E aí, o que você vai fazer no fim de semana? – pergunta o carnavalesco da Viradouro.

- Ah, tô a fim de assistir os ensaios da Sapucaí. Vamos? – convidou o carnavalesco da Estácio, já descendo as escadas.

- Ah, que bom! Então, a gente se encontra pra rir mais um pouco – finalizou Paulo Barros, lá de cima e às gargalhadas, dando a entender que o bom humor também deve ser a tônica de outros encontros da dupla que a gente não participa.


Paulo Barros e Paulo Menezes caem na gargalhada sentados
no trono criado pelo segundo para o desfile da Estácio